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Rir e Comer Bolachas

(In)sucessos

Gosto muito de escrever, sempre gostei. Desde muito nova que escrevo textos, músicas, poemas, ficção, realidade, excertos de livros que nunca terminarei. Não o faço constantemente, nem sequer regularmente ou consistentemente, movo-me a inspiração. E acho que é um erro.

 

Faço-o porque não gosto de escrever qualquer coisa, lê-la de volta e não gostar do que leio. Enfurece-me, entristece-me, destrói-me. E começo a achar que é sintomático de um problema maior que tem levado ao que eu chamo de insucessos mas que provavelmente poderá ser descrito apenas como falta de resiliência, ou esforço ou sei lá bem o quê.

 

Há muito tempo que me sinto a flutuar no mundo, sem saber muito bem o que ando cá a fazer mas com um enorme desejo de descobrir. Vou tentando coisas que gosto e assim que descubro que não consigo atingir a perfeição nessas coisas ou ser a melhor do mundo nesse ramo, desisto. E registo na minha mente como mais um fracasso. Mais um item riscado numa lista de propósitos que já vai longa e que é inútil porque cada queda me tira um pedaço. E eu vou lá e colo-o com cuspo. Sim, eu sei que não precisavam da imagem mental mas é mesmo isto.

 

O pior é que eu estou consciente de tudo isto. Sei que criticar-me minuciosamente a mim mesma e ser tão displicente com os sucessos e tão exigente com os fracassos não me leva a lado nenhum. Que desistir quando ainda mal tentei só perpetua o sistema. Que não vou andar na rua um dia, tropeçar e dizer "Olha, um sonho!" Mas há uns anos atrás dei tudo o que tinha e o que não tinha por um percurso que nunca se anteviu glorioso, só para poder dizer que tinha tentado tudo e ainda hoje sinto que perdi pedaços que já nem com cuspo consigo colar. Então desisto, para nem sequer ter de lidar com a dor e decepção de tentar e não conseguir que é muito pior.

 

Mas será que é mesmo? Começo a pensar que não. E vou tentar escrever mesmo quando não me apetece, quando não quero, quando acho que não tenho nada para dizer, quando só sai trapel. Porque acredito que só no meio da merda é que há diamantes.

 

Há dias encontrei este poema que escrevi há uns anos e continua a ser-me tão pessoal hoje como era na altura. Parece-me que preciso finalmente de prestar um pouco mais de atenção ao último verso e um pouco menos a todos os outros.

 

 

Tenho 15 minutos para escrever um poema.
Penso na métrica, penso no esquema.
Penso em tudo e percebo então
Nunca pensei em pensar no coração.

Tenho 10 minutos para escrever um poema.
Começo de novo, redefino o tema.
Apresso o passo para chegar ao fim
E percebo que me esqueci de pensar em mim.

Tenho 5 minutos para escrever um poema.
Perco-me no auge da ânsia extrema.
Esboço umas linhas apenas para esboçar
E olho para o meu poema sem conseguir respirar.

Tenho 0 minutos para escrever um poema.
E já não importa se tem algum problema.
Agora estou livre deste tóxico dever
E vou escrever um poema só por escrever.

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