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Rir e Comer Bolachas

Das (minhas) palavras que nunca te direi... mas posso escrever!

Foi publicado um artigo no The New Yor Times que falava da arte de escrever cartas "zangadas" (para nunca serem enviadas) como uma forma de expressar todo o descontentamento sem que haja um confronto real com o destinatário de todo o nosso fel. Diz que Abraham Lincoln era apologista deste método. Eu estou a pensar seriamente em alinhar nisto para aqueles casos mesmo difíceis, para escrever coisas que nunca serão ditas pelos mais variados motivos, mas é capaz de me ficar a doer a mão... Descobri, já em idade adulta, que sou uma pessoa rancorosa. Não sou vingativa, nem preciso de desforra, nem nada do género, mas custa-me muito esquecer e perdoar. É tão mau ser assim... Se pudesse mudar alguma coisa em mim, seria esta.

Visto aqui.

Perguntas certas

Perguntaram-me há um tempo "Gostas da tua vida?" respondi que, se pudesse mudaria muitas coisas mas não posso e aprendi a gostar do que tenho. Ou pelo menos, a não ser infeliz com o que tenho. Talvez seja mais isso. Continuaram a perguntar "Gostas da pessoa que és?" e aqui a resposta doeu um bocadinho. Respondi que esta pessoa não era eu, que gostava de quem era antes, blá, blá, blá, whiskas saquetas. Devidamente distanciada da pergunta e da resposta, hoje sei que a resposta está errada mas a pergunta é a mais certa de sempre. Gosto da pessoa que sou? Não. Gosto dos meus valores, gosto daquilo que construí com esforço, gosto de certas características minhas mas não gosto do todo, do global, do conjunto. Dou muita importância ao que tenho de pior.

Finalmente, fizeram-me a pergunta seguinte - e o que podes fazer para mudar? Oh bolas! Se me perguntassem o que poderia acontecer para eu me sentir melhor eu sabia, agora o que eu posso fazer? Apeteceu-me responder "nada" mas era mentira, então respondi que podia fazer muito mas "não consigo". Esta é a minha resposta chapa 5. Não consigo resolve tudo, justifica tudo e funciona como uma absolvição, não tenho culpa porque não sou capaz. Bah. Só posso responder isto se tentar, e não é o caso.

 

Tenho perguntado muitas vezes a mim mesma - o que podes fazer para mudar o que não gostas em ti? E porque não fazes?

 

...

Disse que voltaria a escrever aqui no blog mas tem sido difícil. Nada do que tenho para dizer é o que quero ver escrito. Não é que seja mau, que não é, mas aborrece-me ver nas palavras aquilo que sinto, é como se se tornasse realidade.

 

Mas vamos ao início.

Há alturas em que ando em piloto automático: levanto-me, visto-me, trato do que tenho a tratar, trabalho, sorrio, cumpro, volto a casa, faço jantar, faço almoço, arrumo a cozinha e vegeto no sofá até cair de sono. Faz-me falta a companhia, mas se a tivesse é provável que nada dissesse, e que nada mudasse. A ausência é o meu bode expiatório. A solidão habituou-me a calar o que sinto, não a mim mas aos outros. Não a solidão de estar sozinha mas a solidão de saber que não sabem o que sinto. Como se tivesse que provar que eu continuo a ser eu, quando não sou. O eu que me conheceram não é o que vive em mim. Sou outra pessoa. Nem melhor, nem pior. Diferente. Não preciso que me enumerem os motivos para ser feliz, eu sei-os bem. E sou feliz. Ser feliz não me impede que me sinta assim às vezes, aliás, saber que tenho motivos para ser feliz e sentir-me miseravelmente ainda piora mais o meu estado, o meu humor.

 

Parece que a tristeza não tem lugar nesta vida que vivemos. Dizem-me "Anima-te" ou "Não fiques assim", como se existisse uma obrigação da felicidade permanente. Ou do positivismo. Leio em tudo quanto é artigo de opinião "livre-se das pessoas negativas"... Que raio... Vamos exterminá-las? Ou serão votadas ao silêncio? Cansam-me estes mantras ensaiados, ocos. É mais legítima a minha tristeza, que não é bem tristeza, mas um vazio permanente. Aquele vazio, um espaço enorme preenchido de nada, que a depressão me deixou, não é bom, nem é mau, é nada.

 

Sei que uma noite de sono, ou várias, vão adormecer este estado e irei acordar fresca e fofa, viva e a gostar. Mas agora estou assim. Para quem me vê, e se cruza comigo, estou "normal" mas eu sei, estou em piloto automático. Tornei-me uma mestre na arte de fingir que me sinto bem.

Uma limpeza antes de entrar o ano

Não será uma limpeza profunda mas também não será daquelas a fingir, em que parece que está limpo quando, na realidade, não está. É mais do tipo de renovação do ambiente.

 

Quero arejar a casa, e a minha cabeça e coração também. Mesmo que esteja a chover e faça frio, quero deixar entrar ar, abrir os pulmões e sentir a vida a entrar. Aquilo de que gosto e que me faz bem não vai mudar de sítio mas vai ter o pó limpo e o seu lugar garantido. Quero aproveitar o frio da estação para sentir o calor de um banho quente e um roupão macio na pela ainda morna. Quero deixar maus hábitos e ter novos e saudáveis. Quero sentir os pés do meu gajo nos meus ainda antes de abrir os olhos e antes de chamar nomes ao despertador. Quero não fazer mais balanços e fazer as pazes, com o que passou, com o que fui e o que não fui, com tudo o que fiz e com o que me fizeram. Quero guardar apenas o que aprendi e de que fibra sou feita. Não quero papeis velhos, nem listas do que não fiz. Quero roupas lavadas e sacudidas. Sim, uma sacudidela de vez em quando faz sempre bem. Quero ter a casa limpinha e dormir confortável.Quero acender uma vela, ajeitar a árvore de natal e o frasco dos biscoitos e aconchegar-me no sofá.

 

E, depois de todo o trabalho feito, ficar apenas a ver e a saborear.  E lembrar-me sempre que isto é um work in progress, e que amanhã serei uma pessoa melhor.

 

 

Coisas parvas que me apetece escrever, sem ligação entre si, e que nunco escrevo por falta de enquadramento#5

- Tenho, há dois dias, uma folha comigo para fazer um planeamento de refeições para a próxima semana. Só me ocorre pizza caseira e ervilhas com ovos escalfados. Em compensação, o esforço que faço para me lembrar de coisinhas boas estimula-me o apetite...

Há aí alguém com uma lista já feita?{#emotions_dlg.angel}   De preferência com refeições económicas, saudáveis e muito rápidas.

 

- Da próxima vez que levar o miúdo ao Taekwondoo e não ficar a assistir ao treino ( como T-O-D-A-S as outras mães fazem), em vez de me sentir egoísta vou lembrar-me da minha vizinha esta manhã, a dizer ao filho/enteado (são novos no prédio e ainda não percebi o parentesco) "Sai da chuva, ó anormal!". A chuva faz mal mas estes nomes carinhosos dão saúde...

 

- Porque é a Margarida Rebelo Pinto, o Blatter, a Judite de Sousa, e outros que já nem me lembro, geram ondas de indignação (e merecida) mas os nossos governantes, e ex-governantes, não? Porque é que não se discute de forma tão acesa, tão vincada, tão compatriota, aquilo que fizeram, e fazem?

 

- Alguém sabe onde posso encontrar uma bola de praia insuflável? Ando há duas semanas a perguntar a toda a gente... Já corri os supermercados, hipermercados e lojas do chinês. Não encontro. Ando com vontade de fazer um candeeiro low-cost.

 

Coisas parvas que me apetece escrever, sem ligação entre si, e que nunco escrevo por falta de enquadramento#4

- Tenho três furinhos nas minhas t-shirts preferidas (e quase novas). São pequenos furos, como se fossem buracos feitos por traças, todos juntinhos na zona da barriga. Pensei que fosse do cinto mas raramente uso, pensei que fosse do fecho das calças mas ficam mais acima, e não acontece em mais nenhuma peça de roupa, só t-shirts. Fininhas e giras. As minhas preferidas. Em todas.

 

- Gosto de verniz vermelho. Não pago mais que 1,50€ por frasco. Deve ser por isso que os documentos que tenho em cima da secretária estão riscados de vermelho (passo-lhes as mãos por cima e é ver um risco a aparecer... e não sai com borracha!)

 

- Lavar louça à mão e usar verniz de cor nas unhas é igual a: ou pinto as unhas todos os dias ou tenho que lavar a louça com luvas. E foi ver-me e lavar a louça com luvas, e tirar para atender o telemóvel, e enfiar novamente para continuar a lavar, e tirar para enxugar a louça... enfim. Desisti quando a água entrou dentro das luvas, porque é o tamanho acima das minhas mãos.

 

- Ter um filho (já) com onze anos tem coisas positivas. Agora tomo o pequeno almoço sentada, por exemplo. Acho que há onze anos só acontecia ao domingo...

 

- Estou a tornar-me na minha mãe. Não que ela seja indigna de ser um role model mas é que faço tudo aquilo que critiquei. Até as frases são as mesmas.

Da falta que fazemos e da falta que nos fazem

Esta manhã começou logo com uma dissertação acerca do estreitamento dos laços familiares, ou até dos que não são familiares de sangue mas são, ou eram, próximos. Começou por acaso e acabou rapidamente porque ninguém cedeu na sua opinião e ficámos cada uma com a sua, de qualquer forma, fiquei a pensar naquilo.

 

Acredito, veemente, que uma relação entre duas pessoas (quaisquer pessoas) tem que ser feita pelas duas pessoas e não de forma unilateral. Se de um lado não vemos grande preocupação em estreitar a proximidade, geográfica ou não, é porque não há vontade. "Ah e tal mas a outra pessoa pode dizer o mesmo..." Não, não pode, porque eu estou aqui, contactável, no mesmo sítio de sempre, mas se não for eu a fazer o primeiro contacto nada acontece. E isto diz-me que, se não acontece, é porque não faço falta à outra pessoa. "Ah, isso é teimosia" ou "És tão orgulhosa", não acho. Foi a forma que encontrei de não sentir falta dessa(s) pessoa(s), é tão legítima quanto a falta de vontade de estar comigo, ou de saber de mim.

Porque nestas coisas, para mim, não há excepções:

A culpa é da Disney

Há certos conceitos que eu acredito que nos (eu e todas as crianças que cresceram com histórias) foram impingidos e que eu já tenho em total descrédito. O pior de todos foi o "e viveram felizes para sempre", ninguém falou nas dificuldades e acabou-se o conto no momento do enlace amoroso e a partir daí, que era sempre a descair, já ninguém contou história nenhuma. De seguida vem as madrastas e padrastos, são todos maus como as cobras, e têm filhas ainda piores. Há ainda as bonitas e boazinhas em detrimento das feias com verrugas e más, como se beleza fosse sinónimo de algo mais que a beleza em si. Vieram as histórias mais elaboradas da adolescência, hollywood e afins e vai-se a ver e tudo o que é oriental é de muita sabedoria e profundidade. Nada contra mas acho que, se há povo esquisito, é lá para os lados orientais.

 

Por falar em sabedoria, que era mesmo onde eu queria chegar, diz que a idade traz disso. Outra mentira. Não traz nada, traz rugas, peso, pouca paciência e muita flacidez, agora sabedoria nem vê-la. Por esta altura do campeonato eu já deveria ser exímia na arte de ignorar. Na arte de saber o que sei, avaliar a injustiça da coisa e engolir. Devia saber que há mais marés que marinheiros, que a seu tempo as coisas tomam o seu devido lugar e as pessoas aprendem a baixar a garimpa... Mas saber, saber, eu sei, mas só me lembro depois de sentir a azia, o azedume, depois de mandar uns coices valentes e perder toda a fé na Humanidade. Já acreditei que a vida encarrega-se de meter tudo no devido lugar, tipo história no final tudo se resolve, mas já não sei... Já eu, devia ter atingido aquele estado zen que tudo compreende e esquece mas gostava mesmo era que certas pessoas partissem a cremalheira toda. Para se rirem menos.

...

Lembro-me perfeitamente que na passagem de ano 2004/2005 pedi fervorosamente que o ano seguinte fosse melhor que o anterior. Na altura a vida como a conhecia estava a mudar tanto, para pior, que precisava que o tempo passasse depressa para chegar a uma fase mais tranquila, embora os anos que viessem a seguir não trouxessem a serenidade pedida.

É curioso olhar agora para trás, quase dez anos depois, e verificar que o pior que se temia não aconteceu, graças a Deus, mas nada ficou igual. Somos todos pessoas diferentes, e as nossas vidas modificaram-se totalmente.

O que se mantém constante em mim é a profissão e local de trabalho, há catorze anos que não muda. Mudei de casa, mudei o estado civil, mudei de atitude, fiquei doente, melhorei, mudei de estado civil e agora posso relaxar um bocadinho. Tenho um filho que a cada dia que passa é menos criança, com mais pêlos (especialmente na venta), por motivos económicos, laborais e logísticos o meu marido é agora meu namorado (não é metáfora, é literalmente assim) e a crise faz com que se respire insegurança a toda a hora mas... Sinto-me finalmente a tranquilizar. Sou feliz. Podia ter mais dinheiro, mais saúde, menos kilos, podia... Mas sou feliz com o que tenho.

...

Na maioria dos dias sou uma pessoa bem disposta, diria mesmo que sou otimista por natureza, mas há dias difíceis e hoje quando acordei soube que iria ser um deles.

Não me consigo concentrar em alguma coisas por muito tempo, não gosto de nada, nem me apetece nada. Abro a pasta do pc para ouvir qualquer coisa que goste e passo pelos cd's todos sem que algum me apeteça, acabo por fechar a pasta e ligo o rádio - que escolham por mim. Abro os blogs do dia, leio tudo o que é novo e fecho feedly sem me lembrar já do que li e quem escreveu. Hoje não me recomendo.

Hoje sou aquele tipo de pessoas de quem fujo a sete pés nos meus dias normais. Olho para o lado e não gosto de nada, nem de ninguém, nem a claridade do dia me anima um bocadinho que seja. Hoje as pessoas são todas feias e ninguém vale qualquer esforço. Hoje não quero que me digam que há vidas piores, que ter saúde é muito bom, que são fases e vai passar - faz lembrar as "viroses" que os pediatras vaticinam quando não sabem ao certo o que é.

Hoje mais valia que chovesse, sempre podia dizer que era do tempo.