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Rir e Comer Bolachas

Das manias

Todos temos manias ou pequenos e irritantes hábitos que vamos perpetuando. Eu achava que os outros tinham bastante mais do que eu mas tenho tomado atenção para a minha picuinhice e fui surpreendida.

Só escrevo com uma caneta preta, de uma marca específica. Como é habitual a desgraçada desaparecer, escondo-a quando vou almoçar e guardo-a no fim do dia de trabalho. Tenho outra na mala e em casa.

Não gosto de clips que não sejam de metal. Aqueles com aquele plástico colorido marcam as folhas. Tenho um colega que me traz documentação com esses que me irritam e guardo-os todos; quando lhe devolvo os documentos utilizo os dele. 

Detesto tampas de sanita levantadas e portas de casa de banho abertas. Adoro andar descalça.

 

Gosto de me sentar de um lado específico do sofá.

Só adormeço deitada para o meu lado direito e, por mais que queira ocupar a cama toda, só ocupo um cantinho da cama. Durmo com, pelo menos, 3 almofadas, umas ao lado das outras.

Não sou capaz de ficar onde não sinto que faço falta. Se não é importante que eu esteja, muito provavelmente, nem saio de casa.

Faço piadas parvas quando estou nervosa porque quero aligeirar o ambiente. 

Não sou de flirts. Não tenho jeito e aborrecem-me de morte, parece um casting e soa-me tudo a falso. Tenho a mania das conversas sérias.

Detesto a farinha do pão nas mãos.

Tenho a mania de reparar nas manias das pessoas, acho-lhes graça.

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Porque sim

Já fui tremendamente feliz. Já fui desmesuradamente infeliz. Já senti o coração dilatar para fazer caber quem não me pertencia. Já fechei o coração e não deixei ninguém entrar. Já me senti esmagada com a presença de muita gente e já me senti sozinha no mundo. Já senti a solidão de não me conhecerem e já soube o que era ser vista como se fosse transparente. Já vivi muito e já me isolei para não deixar que a vida me encontrasse.

Hoje sou maior do que fui ontem e sei que não tenho a vida perfeita. Hoje dou o peito às balas para o que vier e faço a viagem com quem quiser acompanhar, não dependendo da companhia de ninguém mas apreciando quem ficar de livre vontade e por sua conta e risco. Hoje sou feliz com o que tenho e com quem sou. Agradeço todos as pedras no caminho e não farei nenhum castelo com elas, vou deixá-las onde estão porque não me pertencem.

Verdadeiramente meu só este coração enorme, com vontade infinita de amar e dar-se.

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Cair sete vezes e levantar as que forem precisas para ficar de pé

Há cerca de dois meses recomecei a fazer terapia, diferente de tudo, inclusivamente, diferente da primeira vez que tentei segundo os métodos tradicionais.Fui de mente aberta (diria mesmo escancarada) e tenho tentado aproveitar ao máximo aquilo que me é mostrado ou sugerido. Em pouco tempo sinto melhorias, se é coinf02331043e4b561582743e1be0cbbe8c.jpgcidência ou não, não sei, nem quero saber. É um investimento em mim que estou a aproveitar com unhas e dentes.

Ao contrário de um tratamento convencional, como arrancar um dente, por exemplo, na terapia o processo de cura acontece fora da sala, fora da hora da sessão, o processo acontece quando eu saio de lá e encontro a minha vida, os meus pensamentos, as minhas crenças. Acontece quando saio da minha zona de conforto e nado em águas desconhecidas. Isto traz uma sensação agridoce: sinto que estou a resolver o que provocava o mau-estar, ataques de pânico, isolamento, mas, para que isso aconteça tenho que me testar, que me obrigar a fazer diferente, a sair do modo automático e sair do modo automático provoca-me ansiedade e podia dar-se aqui uma pescadinha de rabo na boca, mas não aconteceu ainda. 

Em traços largos, a terapia consiste em mandar-me sair daquela sala confortável e segura e viver. Dar o corpo às balas e ir sem medo. Experimentar, fazer diferente, deixar de adiar e arranjar desculpas, arriscar e não ter medo de cair. Hoje esfolei os joelhos. Não sendo agradável, que não foi, deu para verificar que sei ficar de pé e sei levantar-me também. E tenho umas pernas bonitas, vá.:)

 

 

 

 

Já estamos no fim de Junho? Como assim?

Uma pessoa pisca os olhos e já passou mais de um mês desde que vim aqui pela última vez.

Já aqui o escrevi: não sei o que faço ao tempo. Trabalho a 8kms de casa, só tenho um filho, que é autónomo e não precisa que o vista, dê banho ou a papinha à boca e o tempo não chega. Sinto que os dias escorrem-me pelos dedos, quando dou por ela já passou mais uma semana, mais um mês, mais uma estação, e fico com aquela sensação de rato na roda - não páro de correr e não alcancei grandes feitos, aliás, na maioria das vezes, sinto que não fiz nada. Culpo os vários interesses. Gosto de uma jantarada com amigas mas também gosto de ficar em casa a ler um livro para debater no clube de leitura do Cocó na Fralda (o próximo no dia 29); gosto de correr mas também gosto de descobrir uma nova série e ficar a ver episódios de enfiada até acabar as temporadas e queixar-me que não tenho nada para ver; gosto de anhar e ver trash tv até dar-me o sono e ir para a cama com o cérebro já meio  adormecido; gosto de escrever mas também gosto de ir beber um café com as amigas e ficar horas a falar sobre nada e tudo em geral.

E é assim que a vida passa e nem percebemos para onde vão os anos. Um nadita deprimente, eu sei. Isto tudo para dizer que este ano vou fazer uma coisa nova: uma mini-maratona. Yeahh, muitá forte. Assunto a desenvolver aqui no pedaço (ad nauseam) em breve. 

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Há quanto tempo

Há quanto tempo corres, perguntou-me ele e eu fiquei meio atordoada, sem saber o que responder. Não é uma pergunta difícil, a resposta é que é. Corro desde a semana passada, ou desde há quatro anos. Ou talvez há dois, não sei. Corro 2 kms hoje e durante umas três semanas de forma mais ou menos regular, depois paro cerca de três meses. Talvez mais. Até que há um dia que tenho vontade novamente e lá vou eu. 2 Kms de puro sofrimento, a pensar que, se não tivese parado, já não custava tanto, e que gosto tanto, por que razão não faço isto todos os dias?

É com a corrida mas podia ser com mais coisas. É por isto que às vezes olho para certas pessoas e percebo como elas chegaram tão longe com apenas metade da minha capacidade, parece que se chama disciplina.

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Da meia idade

As crises de meia idade nem sempre dão com a vontade de comprar um descapotável, ou de começar a namorar com alguém que nasceu depois de nós tirarmos a carta. Ou de tatuar um diabinho nas costas que nunca se fez por falta de coragem. Às vezes, as crises de meia idade chegam de mansinho e fazem-nos perguntar o que raio andamos a fazer com a nossa vida. É aquele pensamento que chega devagarinho com o "e se...". A minha crise de meia idade chegou quando pensei que, estatisticamente, estou a meio da minha vida, e esta segunda metade talvez não seja tão boa como a primeira.

O facto de ter nascido numa família "desenrascada", onde nunca de passou fome mas não sobrava dinheiro, fez com que, desde sempre, se trabalhasse para comer. O trabalho era a fonte de subsistência e não uma possibilidade de se cumprir um sonho, de ter uma vida maravilhosa e cheia de glamour ou adrenalina. Aliás, nem me lembro de haver sonhos. Não que fossemos todos sofredores ou infelizes, muito longe disso. Éramos reais, tínhamos vidas reais, não fomos educados para sonhar, para uma vida cheia de possibilidades, para querer mais da vida. Era assim porque era assim. Por um lado, não tive que me preocupar muito em descobrir o que queria fazer da vida- não pensei nisso sequer. Fui vivendo à medida que a vida se foi desenrolando. Por outro lado, tenho medo de chegar ao fim da linha (se tiver tempo para isso) e arrepender-me por não ter vivido de forma diferente ou de ter sido uma pessoa diferente. Não tenho vontade de o fazer hoje, mas, e se tiver um dia quando já não for a tempo?

Das raízes

Ontem pedi à minha mãe para me emprestar as fotos mais antigas que ela tem para digitalizar antes que se percam. Não cheguei a conhecer algumas pessoas, ou não tenho memórias disso, outras vou esquecendo as feições ou os nomes, e peço-lhe sempre para me dizer quem eram, como eram, histórias que ela se lembra. Faço perguntas como as crianças, em catadupa, sempre à espera que ela se farte e me pergunte por que raio ando a escarafunchar nas memórias dela, mas ela não se aborrece e vai contando - este é fulano, lembro-me como se fosse ontem; esta sempre foi assim, de saia até aos pés, muito direitinha - e eu vou-me perdendo entre pessoas e parentescos. É curioso pensar que eu sou o resultado da junção de tantas pessoas.

Entrelaçados

Há dias deu-me uma travadinha daquelas que não se conseguem travar e deu-me para limpar o meu roupeiro todo. A coisa ocupa uma parede inteira, tanto em largura como comprimento e encontrei de tudo, portanto, meti 5 sacos de roupa num contentor para o efeito e nem sequer foi desta que me desfiz de roupas de casa e cozinha que tenho em demasia. Mas adiante. Encontrei umas fotos antigas e mostrei ao Dinis. Ele teria uns dois anos- fofo que ele só- e eu estou com o pai dele. Todos sorridentes, como se a felicidade fosse uma coisa certa naquela altura. A foto sumiu-se para o quarto dele e fui encontrá-la mais tarde numa moldura, coisa que nunca me ocorreu fazer, por vários motivos, sendo o principal ser uma situação do passado. Só que não é.

O meu filho tem os dois pais ainda. Somos nós as raízes dele, independentemente do passado, do momento atual ou do futuro. É dali que ele vem e eu devo-lhe isso. Por não nos darmos particularmente bem (embora estejamos muitooo melhor), raramente falo no pai, ou na relação que tivemos, ou coisas que vivemos e é um disparate tão grande. Ele não teve o que eu tive: ele não tem memórias desse tempo. Então decidi: vou fazer um exercício de memória e contar-lhe coisas de vez em quando, quando se proporcionar ou quando ele quiser saber. Às vezes, esqueço-me que, sendo mãe, a minha vida não é só minha, e o pai dele é mais do que o meu ex-marido, e faz parte do presente dele.