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Rir e Comer Bolachas

O Tinder e eu

Há umas semanas, por motivos que não vêm agora ao caso, instalei o Tinder. Deixei a curiosidade levar a melhor e lá andei a rodar à esquerda e à direita, num gosto-não gosto que me dá cabo dos nervos mas que faz parte. Acho um bocado redutor ter uns segundos para avaliar uma foto e decidir se me agrada ou não mas, se analisarmos bem, é o que fazemos no dia-a-dia. Se temos mais informação a completar o que os olhos absorvem? Temos, mas os olhos comem primeiro. Salvo seja.

Dizia eu que lá andei uns dias, enganei-me algumas vezes e, na tentativa de rever uma foto, acabava por fazer like em alguém. Ao fim de uns minutos, já tinha um match, o que me leva a crer que a maioria dos homens fazem swipe à direita em todas. Alguns são honestos e abrem o jogo logo de inicio: andam à procura de parceiras para sexo sem compromisso e sem falar, de preferência. Outros, mais carentes, dizem procurar a alma gémea, como legenda de uma foto de um por-do-sol. Arghhhhhhhhh. Encontrei muitos cromos, muito cromos. Fotos de arrepiar azunhas dos pés e largar o telemóvel com medo. Encontrei quem, depois de três frases de conversa de circunstancia, tentou umas frases de engate do mais básico ao estilo "acreditas em amor à primeira vista ou mando-te outra foto?" e depois encontrei uma pessoa agradável, com uma conversa muito interessante. No final da conversa, prometida nova brevemente pela parte dele, o que faz esta moça aqui? O óbvio, claro. Pensei que só podia ser casado. Ou aquilo era tudo fachada. Ou um psicopata qualquer. Ou pior, tudo isto em conjunto. E desinstalei a aplicação. No dia seguinte, à luz da sanidade mental que me resta, pensei que tinha sido um perfeito disparate e que, com toda a certeza, haveriam pessoas normais por ali. Eu, claramente, faço parte dessa gente. :)

Falei com mais duas pessoas depois disto, que me lembre. Um todo gingão, giro nas horas, com um corpinho danone. Desconfio que as fotos já teriam uns anitos mas tem mérito de igual forma. Aliás, era a única coisa que lhe valia, coitado, porque conversa não. Os assuntos morriam. O nível de interesse era alto, ao nível do tempo e campeonato de futebol. Da 3ª divisão. Mas houve outro. E o outro escrevia sem erros ortográficos, com pontuação, e com interesse. Com sentido de humor. Mostrou "dois dedos de testa" e eu deixei-me levar. As saudades que eu tenho de conversar com alguém assim, daquela forma...

Depois de muitas mensagens cá e lá, dei-lhe o meu nº e começámos a utilizar o whatsapp. Fechei a aplicação porque não é, definitivamente, a minha cena. Aborrece-me a conversa de encher chouriços e, se passarem logo à seduçãozinha barata, o efeito que surte em mim é fugir o mais depressa que conseguir. Mas esta pessoa tinha qualquer coisa diferente, com a qual me identifiquei e nem sei o que é. Achava-o evasivo, nunca quis dizer o apelido e aquilo começou a incomodar-me. Quanto mais gostava da conversa, quanto mais me identificava e tinha curiosidade para descobrir mais, mais me incomodava saber que estava a mergulhar em águas cujo pé não sabia calcular. Combinámos um jantar. Começou por café mas um jantar pareceu mais apropriado porque tínhamos muitos assuntos para falar. E eu ia mesmo. Estava a fazer-me bem ter umas mensagens no telefone sem ser conteúdos que sabia de cor, ou que incluísse uma lista de compras. Mas não cheguei a ir ao jantar... Googlei o nº dele e constatei que não me tinha ditomentira nenhuma. Em vez de ficar contente e sossegar, adivinhem lá o que fiz... Certo, entrei em pânico. Pensei que, se não me dizia o apelido, poderia esconder muito mais, e não tinha confiado em mim também, o que seria um péssimo indicio. Depois de um belo copo de tinto, disse-lhe isto tudo. Ele reagiu como se reage a uma louca e fez-me a vontade. Foi à vidinha dele e eu à minha.

Se me arrependo? Muito. Não sei, sequer se ter conhecido, pessoalmente, aquela pessoa faria alguma diferença, se teria havido alguma química, se era um banho de água mas sei que não consigo confiar nas pessoas, e tenho pavor de me envolver com alguém, de gostar da companhia de alguém. E isso é muito triste e não quero viver assim.

Não é liberdade se me detém.