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Rir e Comer Bolachas

Voltei.

Andava há tempos a pensar em voltar ao blog, ou até a fazer um novo, mas acabava por protelar sempre mais um bocadinho. Hoje foi o dia. E decidi não fazer outro mas continuar com este, afinal, não sou outra pessoa, sou a mesma. 

Deixei de escrever aqui para não olhar para dentro. Escrever foi sempre uma forma de alinhar os pensamentos, de pensar nas coisas, de desabafar nas entrelinhas, um exercício de perspetiva e, durante um tempo, não quis fazer nada disso. Estive a fazer o meu luto, um tempo de recolha, em que se sofre sozinho e não apetece partilhar com ninguém. Não foi apenas uma relação que acabou, foi uma enorme parte de mim, que arrasou as minhas crenças e os meus valores, em suma, que acabou comigo. Como tal, a última coisa coisa que me apetecia era vir para aqui lembrar-me disso, lamber as feridas e ter pena de mim. Oh, meu Deus, como tive pena de mim durante este tempo todo. :)

Agora volto. O que se tira do confronto com os nossos maiores medos é a certeza de que somos maiores. Sempre.

...

Há dias em que sinto que tudo o que faço é inútil, que não tem valor, que pareço um rato na roda e que, faça o que fizer, tudo há-de acabar da mesma forma - mal. No entanto, existem outros dias, em que estou atenta a detalhes e percebo que fiz a diferença, para melhor, e que as pessoas não são todas iguais. Às vezes, muito raramente, aparece alguém a quem vale a pena nos darmos.

Aprendizagens

Não sei de onde vem a minha motivação, ou o que me move. Costumo dizer que, se fosse hoje, não conseguiria deixar de fumar mas o facto é que deixei, e não sei como. Sei que me custou horrores mas não me lembro do pensamento que antecedeu a decisão. Já tinha feito tentativas anteriores e não resultaram, porque razão aquela se manteve? Não sei. Sei que, às vezes, tomo decisões e sou capaz de virar o mundo de pernas para o ar, o meu e o dos outros, outras vezes, ainda mal decidi e já estou a retroceder, desisto facilmente e todas as tentativas são em vão. Soubesse eu de onde vem a força que me move e a minha vida seria tão mais fácil.

Desta vez, sei. Tomei uma decisão por mim, e para mim. Contam-se pelos dedos das mãos as decisões que tomei para meu único benefício durante a minha vida de adulta. Esqueço-me de estar em primeiro lugar e nem sequer é altruísmo, é apenas porque acho os outros mais merecedores do que eu. Os últimos meses têm sido diferentes, sou a minha prioridade, e até descobri que cuido melhor dos outros desta forma.

Espero ter aprendido a lição.

Quando aquilo que sabemos atrapalha mais do que ajuda

Há uns anos atrás, quando me encontrava com uma amiga e a metia a par do que ia acontecendo a colegas nossos, ela dizia-me que nem lhe passava pela cabeça que haviam vidas "tão estranhas". Nada do que lhe contava era estranho, para mim, era apenas a vida a acontecer - uns casavam, outros separavam-se, uns mudavam-se, outros regressavam, enfim, coisas de jovens adultos, com muitos erros à mistura. Eu ria da ingenuidade dela e torcia para que ela continuasse sem saber como as coisas aconteciam na "vida real".

Agora, ainda dentro da dita normalidade que é a vida como a conheço, pergunto-me para que serve tanto conhecimento que adquiri. Sinto que não acrescento nada à minha vida, mas sim, tira-lhe todos os dias - tira sossego, tira esperança, tira fé. De que me vale saber se a minha vizinha trai o marido com tudo o que mexe, com aquele ar sonso que ela faz? O que traz de bom à minha pessoa, ao meu conforto, saber que um marido, casado há um ano, não se separa da mulher, por pena, mas que a trai de todas as formas possíveis, ainda que não toque em outra?

Bem digo que a ignorância, às vezes, é uma bênção. Gostava de conseguir olhar para as pessoas como se nada soubesse, pela primeira vez, e não ter ideias pré-concebidas, não ter a "bagagem" que já me faz não confiar, mas não consigo. 

 

O meu irmão apaixonou-se duas vezes em 10 anos

Não é muito, pois não? Importa dizer, no entanto, que foram ambas este ano. E de cada uma delas, foi "de caixão à cova". Não cheguei a conhecer a primeira namorada mas o rapaz andava doido, de aliança no dedo e tudo (coisa inédita para este quarentão), mas ontem já fui apresentada, formalmente, à minha cunhada nova. Ela é gira, gira, e ele está apaixonadíssimo, aliás, parecem estar os dois.

Durante pouco mais de dez anos este moço teve relações parvas (na minha opinião, porque há quem goste), sem nunca assumir coisa nenhuma e tinha sempre justificações, traumas e o camandro -ou por causa dos filhos, ou porque não queria um relacionamento sério, ou porque gostava da noite e não se queria prender, tudo servia. Encontrou sempre quem estivesse disposta a compreender os traumas, ou quem quisesse relações deste género mas agora, com a pessoa certa, ele já quer tudo a que tem direito e sem problemas nenhuns. Quase que apostava que quer casar, ter um cão e uma casa com cerca branca. Esta manhã ligou-me para perguntar o que tinha achado dela e responde de imediato "É cinco estrelas, não é?". É, sim senhor, mas nunca me tinha perguntado semelhante coisa, acho até que a minha opinião não era importante, era apenas para poder falar sobre esse assunto. Outra vez. Com voz dengosa.

E eu fiquei a sorrir sozinha, a sentir-me dividida entre uma pontinha de saudades de sentir-me a pessoa mais feliz e sortuda  do mundo e o desejo de nunca mais sentir tal coisa.

Larguei o Alberto-dos-canos que há em mim

E não mudei torneira nenhuma. Diz que aquilo é coisa para quem sabe e vou esperar que lá vá o meu irmão. Dou-lhe até 2016, depois desisto e pago a alguém para lá ir (não é paciência, é falta de verbas). Talvez descobrisse ali a minha vocação, passaria a ganhar rios de dinheiro e seria minha patroa, tenho para mim que ficou ali um talento por descobrir mas (tinha que vir um mas) resolvi, também este fim de semana, que não me voltaria a vergar. Nem mesmo por uma torneira. Decidi que, doravante, andarei de cabeça erguida e costas direitas e, quando passar por um espelho, posso olhar à vontadinha porque gostarei do reflexo - não só por ser bonita, que sou, mas porque tenho orgulho na mulher que me tornei. E piscarei-me (tenho jeito, não tenho?) o olho, e pensarei "you go, girl".

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...

Há quase um mês que não escrevo. A última vez que escrevi aqui foi no mesmo dia, horas depois, que a minha vida mudou. Só não digo que era a vida a desafiar o que havia escrito antes porque não foi a vida que decidiu, fui eu. Pensei na minha vida durante uma semana inteirinha, não falei acerca do assunto com ninguém, deitei-me e acordei a pensar no mesmo, e durante o dia pensava também. Ouvi o coração e a cabeça, dei razão a um e a outro, às vezes a nenhum, mas, no fundo, no fundo, sabia qual era o caminho a seguir. "Quando um não quer, dois não fazem" 

Há quase um mês que não sinto. Estanquei tudo e não me deixei sentir nada, não falo sobre o assunto e não penso sobre o assunto. A minha vida permanece igual e está tudo diferente. No meu anelar já não existe anel, e já nem sequer existe a marca de dez anos. Os chinelos continuam à beira da cama porque nem sequer os vejo, entro e saio do quarto, mudo a roupa da cama e das duas almofadas, e nem sequer vejo nada. Nem na roupa lavada, que está por passar, porque sei que lá encontrarei coisas que não me pertencem.

Há quase um mês que finjo que sou de pedra, que tenho tudo definido e organizado, que não tenho dúvidas, que não tenho insónias, que não tenho medo de voltar a morrer por dentro sem que se note por fora. Tenho andado em negação, a primeira fase do "luto". Por mim, saltava já a fase da raiva, da negociação e da depressão. Não tenho a certeza de conseguir lidar com mais depressões, mais tristeza, mais isolamento, mais sofrimento, no que depender de mim, passamos já à aceitação. Venham de lá as dores, as arrumações e as perguntas de toda a gente. 

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A soma de todas as coisas

Aflige-me muito a ideia de que a felicidade é algo que não se consegue atingir, que é apenas um sonho, um objectivo mas que nunca chegará a ser atingido, e que andamos na vida apenas para desfrutar de pequenos momentos, que passam e permanecem apenas na memória, até vir outro novo, que será igualmente fugaz. Eu gosto de pensar que sou feliz, que aprecio as coisas que a vida me tem dado e que, às vezes, essa felicidade atinge picos, com momentos muito bons, que se guardam como pequenos tesouros até vir um novo. Mas a felicidade está lá, implícita na rotina que me tira da cama todas as manhãs. Se podia ser mais feliz? Oh, bolas, então não podia? Podia, sim senhora. Mas não sou menos feliz por isso, apenas podia ser mais. Ou acredito que podia ser mais.

Quando ouço alguém dizer que a felicidade não existe, não consigo deixar de pensar que esse alguém deve ser muito infeliz para fazer tal afirmação. Espero estar errada.

A felicidade nada tem a ver com os dias menos bons, com arrelias que a vida traz, a felicidade é o fio condutor. É o conjunto de pessoas que nos fazem bem, é o trabalho que fazemos e pelo qual somos pagos, é deitarmo-nos na cama quentinha e afofar a almofada que é só nossa, é sentirmos água gelada do mar nos pés, são os braços que nos apertam contra o peito, é o sorriso que faz quem nos vê. Felicidade é a soma das coisas que nos fazem levantar todos os dias. E pode ser acrescentada, às vezes diminuída, mas existe, está em nós.

Do valor de cada coisa

Esta manhã o despertador tocou e eu parecia uma alucinada a tentar perceber o que era aquele som, quem era eu, onde estava, que dia era. Quando durmo, durmo mesmo, e ainda bem, acordei revigorada e a sentir-me gente. Uma noite bem dormida e eu sinto que tudo está bem no mundo, que o dia está maravilhoso e as pessoas são maioritariamente boas. Depois, aconteceu a vida. O mau humor de uns, a bipolaridade de outros ou a apatia, a falta de vontade em estar bem, vão contagiando o meu estado de espírito. Como dizem os brasileiros, cortando o meu barato, e eu fico duplamente mal disposta - por contágio e fula da vida por deixar-me influenciar.

Parece que é cada vez mais difícil encontrar pessoas equilibradas, minimamente de bem com a vida. Não digo que não é legítimo ter insatisfações, frustrações, dias menos bons, eu tenho e não são poucos, mas... E os outros? Os dias em que não faz vento e a temperatura está mesmo bem? Os dias em nos fazem um elogio só porque sim ou comemos o nosso prato favorito? Os dias em que acordamos sem dores e sem preocupações de maior? Será que os vivemos de forma tão acentuada como os maus? Não. Habituamo-nos ao que é bom e desvalorizamo-lo. Minimizamos o bom e damos ênfase ao mau. Possivelmente, é uma questão cultural, está enraizada na nossa maneira de ser, mas não deixa de ser triste.

Vivemos a olhar para o nosso umbigo, para aquilo que nos aborrece e esquecemo-nos de nos distanciarmos, de verificar que um mau dia é apenas um mau dia e não uma má vida. Esquecemo-nos que influenciamos os outros, à nossa volta, e que custa tão pouco fazermos melhor e fazermos bem a nós próprios, até fazendo bem aos outros.

Às vezes, para melhorar a disposição basta parar. Respirar apenas. Dar menos importância. Porque, feitas as contas, nenhum aborrecimento vale a pena.

 

Baixar a crista

O parto pode ser uma analogia para a adolescência- quer tu queiras, quer não, quer estejas preparada, quer não, vai acontecer. Vais ter que te desenrascar, que te reinventar, vais ter que dar a volta, porque vai acontecer. À semelhança do parto, quando começam as dores também não dá para dizer "ah e tal, afinal, paramos aqui com isto porque eu pensei melhor e quero desistir".

De qualquer forma, quero acreditar que o amor infinito que temos pelas nossas crias basta. Que não resolve sozinho as adversidades mas faz com que, mesmo por caminho tortuosos, os encaminhe, os guie e os segure nos trambolhões que têm que dar. E que nós temos que ver, porque as bolhas protetoras e invisíveis onde gostávamos de os guardar não existem.

Isto da maternidade é, também, uma lição de humildade.