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Rir e Comer Bolachas

Porque é hoje é dia da amizade, lembrei-me

Moro há dez anos no mesmo sítio. Nestes dez anos, a mesa da cozinha foi parar à sala, os sofás já tiveram em, pelo menos, três lados diferentes (tal como a tv), os móveis estão juntos pela segunda vez e separei-os de duas formas, a cabeceira da cama já esteve em duas paredes diferentes e o roupeiro é o segundo que tive ali. No quarto do Dinis, a mesma coisa - a cama já esteve encostada, desencostada, ao meio, à ponta, a secretária já mudou de sítio duas vezes e o roupeiro outras tantas. Nem falo das cores, agora está de branco integral mas já teve riscas, paredes a contrastar, tudo. Aquela casa está em constante mudança, acho que porque nunca pude fazer aquilo que gostava realmente (falta de verbas) e vou procurando o jeito de me contentar.

Só gosto destas mudanças, não gosto das que envolvem pessoas, ou locais. Sou de criar raízes, embora achasse que não. Não gosto de perder pessoas, ainda que elas não me façam tão bem quanto eu gostaria, não gosto de desistir delas, nem gosto que desistam de mim. Quando faço, não volto atrás, e fica um buraco negro por preencher, que ninguém preenche, por só pertencer aquela pessoa. Foi assim com a minha melhor amiga. Era uma irmã para mim, ainda que não tivéssemos os mesmos pais, e custou-me horrores desistir dela mas fi-lo, magoava-me muito mais, e todos os dias, saber que não era recíproco. Lá está, expectativas... Assim, sem ela, não tenho expectativas nenhumas, nem penso nela todos os dias sequer, mas antes, sim, pensava e esperava, todos os dias. Todos os dias as minhas expectativas, ou esperança, faziam-me acreditar que cada um é como cada qual e ninguém demonstra afecto da mesma forma, que éramos apenas diferentes. Mas entristecia-me um bocadinho que não sentisse a minha falta, que não desse por isso que deixei de ligar, que não me convidasse para conhecer a sua casa nova. E, no dia seguinte, mais um bocadinho. Nos seguintes também até que, um dia, deixei de ter pena e aceitei que, embora não venha a ter mais nenhuma amiga assim, que me conhecesse desde miúda e me conhecesse os esqueletos no armário, desisti. Hoje só existe vazio, nem mágoa, nem rancor, nada. Só aquele buraco negro, que não vai ser preenchido, que há-de ficar assim, sem incomodar.

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