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Rir e Comer Bolachas

Das maiores neuras de que há memória

Esta manhã acordei assim, como se uma nuvem andasse por cima da cabeça e trovejasse muito. Logo hoje que o sol entrava lindo pela janela. Quando saí de casa já se tinha instalado para ficar o dia todo. Odeio estar assim mas não consigo mudar o estado de espírito, só mesmo dormindo outra vez. Quando fico assim, castigo-me. Que querem? É uma espécie de masoquismo. Mal conseguia abrir os olhos com a claridade mas não me apeteceu estrear os meus óculos de sol novos, por exemplo. De todo o trabalho que tenho para fazer, estou a fazer o mais difícil, aqueles complicados a dar para o impossível. Olha, estraga-se só um dia.

Hoje é o que há. Hoje o dia está cinzento só para mim.

Dos dias que voam

Juro que não sei o que faço ao tempo.

Entre trabalhar até mais tarde, duas idas ao ginásio por semana e fazer de táxi no percurso casa-trabalho-escola o meu tempo some. Deito-me cada vez mais cedo porque adormeço no sofá. Não sei o que é passar a ferro mais do que cinco ou seis peças de roupa há semanas a fio. Se não uso maquilhagem perguntam-me se estou doente porque tenho "um ar cansado". Alguma coisa que me diz que vou tirar férias muito brevemente, até porque mudanças estão a chegar. Muitas mudanças. Daquelas que nos viram do avesso e dão toda uma nova dinâmica aquilo que fazíamos igual há anos e anos. Desta vez não lhe resisto, já aprendi que mudanças são necessárias e trazem sempre coisas boas, fazem parte do percurso e, muitas vezes, é lá que está a piada. Só preciso de um bocadinho mais de energia para aguentar a coisa e planeá-la como se impõe.

Os cobardes

Os cobardes são aqueles que, não tendo coragem própria, incitam os outros a batalhar por eles, não de forma vigorosa mas baixinho, sem darmos conta, sem grandes ondas, sempre lá a remoer alguma coisa que devíamos ter dito ou feito. Cobardes são aqueles que, não tendo coragem para dar um rumo à vida, deixam-se ir ao sabor das ondas, sem parar de criticar quem escolhe o caminho e rema, ainda que se engane. Os cobardes são como os cães que ladram do lado de dentro dos portões e que se encolhem quando o portão abre. Os cobardes não falam alto, não dão murros nas mesas, desconfio, até, que não têm sangue nas veias. Os cobardes não dizem mal de ninguém, não diretamente. Fazem-no com um falso silêncio, de quem sabe e não conta, semeando a dúvida, vestindo a pele do cordeiro. 

Prefiro as pessoas que gritam, que esperneiam, que não se contentam, que têm o sangue quente e, às vezes, erram. Nessas confio.

A lontra que há em mim foi a mais uma consulta de nutrição

Não ia com grandes expectativas, que isto de ser gordinha há muito tempo(é mais obesa, tipo I, mas eu agora trato-me bem) , ensina-nos que não há nutricionista que nos aconselhe a comer lasanha e pizzas aos molhos, que, isso sim, vai emagrecer a pessoa. Começa tudo com a mesma pergunta: o que é que come? Sinto-me logo como na minha primeira confissão em tempos de catequese, a inventar pecados porque não sabia o que dizer ao senhor padre. Sei lá eu o que como, ou melhor, não como o mesmo todos os dias, devia ter um relatório com isso escrito? Digo o que tenho feito feito, o que sei que faço mal e aquilo que julgo fazer bem porque já foi aconselhado em consultas anteriores. Rapidamente descubro que está tudo mal. A anterior disse para não beber leite de vaca? Está errado, pode beber, desde que seja magro. O quê? Misturar leite e café? Nunca na vida. Na sopa, então, há mais regras que legumes para meter lá dentro. Não pode levar batata. Nem cenoura. Nem feijão, grão ou ervilhas. Não gosto de courgete, nem couve-flor, logo, ficam umas sopas que é de chorar, e não é por mais. Depois, os lanches. Um deles são duas bolachas de água e sal. Sem sal. Só proteína, não, que precisamos de tudo. Bem, tudo menos hidratos, açucar, e gordura. Só frango e perú, do tamanho da palma da pão. Pode ser a mão do Godzilla? É que sem arroz, massa ou batata, a pessoa fica com fome com o prato cheio de salada.

Fiquemos por aqui. Digamos que dificilmente voltarei a ser magra, isto de contar as folhas de alface não é para mim. Faço uma alimentação saudável, variada e que obedeça ao senso comum e prefiro aumentar no exercício físico. Pelo menos, ganho saúde e sou mais feliz.

Ir ou não ir, eis a questão

O jovem garboso que vive lá em casa achou que era boa ideia passar a frequentar o ginásio. Se, por um lado, fico contente por estar a dar o exemplo, por outro, começo a fazer continhas à vida e o dinheiro não estica, só encolhe. O pai do jovem diz que há muito estrada para correr e fazer exercício, não paga mensalidades de ginásio. Eu disse-lhe para subir e manter as notas e depois conversávamos acerca do assunto. Veio mesmo a calhar - é que o problema é não saber o que fazer...

De facto, há muita estrada para fazer exercício, existem os parques urbanos, na escola pratica algum desporto nas aulas de educação física, enfim, não há justificação para mais uma despesa, ainda mais se o pai não suportar metade. Mas eu frequento o ginásio. E eu também tenho estrada e parques urbanos, só que não vou, mesmo que tenha vontade, e percebo se ele também não for. Que legitimidade tenho eu? Sim, sou a mãe, e sou eu que trabalho, mas não me parece correto. Estou errada?

Dormir com o inimigo

Que é como quem diz, ir dormir a pensar em quem nos fez mal, nos magoou e que, regra geral, foi alguém a quem demos a nossa confiança. Dizem os entendidos que isto faz mal, que devemos perdoar, que não precisamos de esquecer mas que não podemos permitir lembrar aquele acontecimento que nos tortura porque é darmos poder ao inimigo, ou seja, damos permissão para que nos continue a magoar todos os dias.

Eu percebo o conceito, e concordo. Claro que sim, eu não quero nada continuar a lembrar-me do que me fizeram ou do que não fizeram e deveriam ter feito mas não consigo controlar isso. Posso empurrar aquele pensamento que vem à lembrança bem para o fundo mas, em coisas que não posso controlar, saltam à memória episódios que magoam, que mexem com a minha noção de justiça, que moldam a forma como vivo, quer eu queira, quer não. Porque falamos de emoções, de terreno em que não podemos mandar.

Eu gostava de perdoar o que tenho a perdoar mas ainda vou dormir com várias pessoas no pensamento, e não aposto porque só gosto de teimar, mas quase que apostava que duas ou três dessas pessoas não imaginam sequer o quanto me feriram, e ficaram muito surpreendidas quando deixaram de fazer parte da minha vida, o que mostra que o que fizeram não foi com intenção de magoar, mas magoou. Se merecem perdão? Quero acreditar que todos merecemos, eu também faço muita parvoíce, mas ainda dói e não há truques para lamber feridas, há apenas tempo, e eu acredito que, a seu tempo, também isto conseguirei perdoar. Até lá, não me vou martirizar porque tenho que ser boazinha para as pessoas, aprendi a dar na medida que recebo. Nem mais, nem menos. E tenho dormido bem.